a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

19/01/2017

Wouldn’t it be good?

A propósito de uma coisa qualquer, lembrei-me disto (que vou contar a seguir). Primeiro hesitei, não, essa história não interessa nada, o blogue não precisa saber. Lá isso não precisa. Mas que a vida nos traz histórias assim, traz, confirmas? Absolutamente, traz. Então porque não?

Quando era adolescente ia de vez em quando a festas nas quais dançava até ao último acorde, dançava muito. Lembro-me de Queen (Crazy Little Thing Called Love), SuperTramp (It’s Raining Again), de Rod Stewart (Da Ya Think I’m Sexy?), The Cars (Tonight She Comes), lembro-me do Nick Kershaw (Wouldn’t it be good?), dançava isto tudo e muito mais; não dançava os slows (havia os slows). Nos slows ficava sentada. Não para descansar que disso eu não carecia, mas porque a ideia era virem os rapazes pedir a dança e eles não vinham. Eu, pelo meu lado, nunca me atrevi a ir tentar a sorte, porque podia muito bem ser azar e não queria levar uma risada na cara. Portanto ficava sentada até acabarem os slows. Mas houve uma vez, numa festa em casa de uns amigos – atenção - dos meus pais - aquilo era festa com pais mas os pais ficavam noutra sala - em que um dos rapazes que lá estava se dirigiu para mim logo no início do primeiro slow. E eu cá para os meus botões, olha queres ver que…? E era mesmo: perguntou-me se eu por acaso quereria dançar com ele. Disse que sim, evidentemente, está aqui uma raridade, etc, fui. Pelo menos aquela dança não a passava sentada como de costume, às vezes até me punha a fingir muito entretida com uma coisa qualquer na palma da minha mão ou na costura da saia, para disfarçar o desapontamento. Enquanto dançávamos o slow, esse rapaz e eu, andava por lá um homem com idade para ser meu pai, ou pai dele, ou seja, fora da sala onde deviam estar todos os pais e afins, e andava a fazer ligações destas: ia buscar um rapaz e levava-o a uma rapariga que estivesse sentada para os pôr a dançar, depois outro e assim sucessivamente, ia emparelhando quem ainda não se tinha emparelhado. Eu estava a achar aquilo pindérico, pífio, não quereria eu ser alvo daqueles arranjinhos nem por nada, mesmo sendo o meu costume aquilo que agora já se sabe, e disse ao meu par este homem é um bocado parvo. Sempre era uma forma de meter conversa para quebrar a falta dela, como é que se faz isto dos slows, não se fala?..., parecia-me esquisito dançar assim sem falar. Ele não respondeu, e eu pensei que talvez não me tivesse ouvido, a música tocava alto. Repeti, mais para encher o vazio de conversa do que por má índole: este homem é um bocado parvo. Nada. Será que ele não ouve bem, este rapaz? Esperei um bocadinho, a dança continuava, conversa nenhuma, o rapaz calado e eu tornei: este homem…
- Este homem é o meu pai.

O resto do slow foi dificílimo e depois desse é fácil adivinhar que fiquei sentada em todos os outros.

18 comentários:

  1. Acabei de me lembrar de um certo slow na matiné de domingo numa discoteca (havia disso), que foi o Eternel Flame, Bangles. Ao contrário de ti, não me parece que tenha falado! :)) Foi há 26 anos!!!!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois havia, havia discotecas à tarde, agora estão todas deslocadas para a madrugada, deve ter sido uma inflexão no espaço-tempo que nem Einstein explicaria. E havia boîtes, o meu avô dizia boîtes.

      Portanto, querida Cuca, essa ausência de conversa de há 26 anos deu para ouvir a música toda muito bem. :-)

      Eliminar
  2. eu também confirmo. é assim que as histórias no chegam :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Precisamente, Tétisq. E podemos partilhá-las e tudo.
      :-)

      Eliminar
  3. Agora percebo porque era de oiro o silêncio nos slows... :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu também passei a perceber, um pouco tarde, claro. :-)

      Eliminar
  4. Que maravilha, Susana.

    (Esta manhã está a correr-me tão bem :), aqui a ler isto, de um lado, a ouvir o tanguinho da Cuca, do outro, e o café, ainda. Caramba, até me ponho a pensar)

    Bom fim-de-semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que coisa boa a manhã estar a correr-te bem, Lady Kina. Ainda por cima é sexta feira (como diria o Schrék).

      (Mas olha que tu tens o costume de pensar, ai tens tens)

      Bom fim de semana e obrigada :-)

      Eliminar
  5. os meus pais conheceram-se assim, ele foi ter com ela e perguntou se ela queria dançar... já perdi oportunidades dessas, talvez umas aulas de dança sejam mais do que imprescindíveis se queremos sair do lugar :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, Manel, as aulas de dança são absolutamente prescindíveis, era para se dançar com a alma e sem conversas (olha a Cuca ali, ela sabe e os teus pais também!), o resto é deixar ir.

      Não sei, digo eu. :-)

      Eliminar
  6. Que bom, Susana, recordar estas histórias. Também tenho muitas memórias de slows, bailes de aldeia e matinés dançantes. Já não se dançam slows, pois não?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu acho que agora só se dança ao som de tábuas a bater na cabeças das pessoas e dentro do coração. A última vez que estive numa discoteca, para aí há mil e quinhentos anos, lembro-me de ter vindo cá para fora, porque o meu coração ficou todo confundido com aquelas batidas mais fortes que as dele. Até doeu.

      Eliminar
  7. Por essas e por outras é que não frequentava locais de dança. Nem festas, bem vistas as coisas. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Carla :-)
      E provavelmente usaste muito melhor o tempo.

      Eliminar
  8. Ah sim...então eu conto como conheci o meu primeiro marido...vi um carro estacionado num largo de uma aldeia onde estava com vários amigos, embora não conhecesse muito bem todos (era local de colónia de férias e eram todos monitores), um 2 cavalos prateado, não era cinzento, era mesmo prateado. Eu: mas quem é que pinta um carro tão giro desta cor horrorosa?! Uma voz risonha saiu do grupo: fui mesmo eu! Corei até mais não e tudo a rir...uns dias mais tarde já namorávamos. Ou seja, se calhar o teu rapaz não tinha tanto sentido de humor como o meu...
    ~CC~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Prateado, prateado? Da cor de uma garfo ou de uma faca? Devia até ficar giro o carro :-)))
      O "meu" rapaz não cheguei a saber nem como se chamava. :-) (mas com um pai daqueles, enfim, digamos que...)
      Um beijinho, CC.

      Eliminar
  9. garagem, bailes de garagem ao sábado à tarde para passar o tempo. escusado será dizer que a (filha) dona da casa, logo, dona da garagem, tinha o caderninho das danças (slows) completo, mesmo que muito desengonçada. e era, coitadinha, até era. mas, lá está...
    tudo isto relembrado a uma sexta, quase quatro décadas depois. é obra!!! obra tua, Susana, já se vê.
    bom fim de semana.
    um beijinho,
    Mia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. que bom teres tido uma garagem , Mia! naqueles tempos era seguramente um bem cobiçado! :-)

      Bom fim de semana, um beijinho.

      Eliminar