a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

23/11/2017

Não há fome que não dê em fartura

Na Finlândia fazem pão com farinha de grilos por razões diversas, extraordinárias, mas bolas que eu ainda estou processando a ideia de comer pão feito de grilos moídos.
Por outro lado, não me lembro de quando surgiu esta situação da Black Friday e até hoje nunca aproveitei nenhuma como má consumidora que francamente sou (já voltamos aos grilos).
Por conseguinte, ter levado hoje, logo hoje, o carro para a revisão anual não foi a melhor ideia possível, devia ter esperado por amanhã: dois pneus novos, substituição da bomba do líquido que refrigera o motor e que não é coisa pouca para além do resto que é costume. Para casa vim a pé logo após desistir dos táxis que não quiseram responder ao pedido rádio, e vim seguindo as instruções do meu telefone artificialmente inteligente. Foram uns trinta minutos e ainda parei satisfeita no centro comercial para fazer o que antes me fazia tão bem: comprar o jornal e tomar café enquanto o leio em cima da mesa com as pontas a pender para lá do perímetro circular daquela. Fazia tão bem, digo fazia: o jornal em papel hoje em dia dá tristeza, está um vazio enchido de publicidade.
Nem dizia nada sobre os grilos finlandeses moídos para pão sem glúten, por causa dos grilos é pão sem glúten, dizem  isso, e agora estou a pensar que também deve ser estaladiço. Gue.

22/11/2017

Sopa de caranguejo e tangerina*

Primeiro digo que foi esquisito há imensos anos quando a fnac passou de prestador de serviços de ar condicionado com música de Vivaldi constantemente presente nos anúncios televisivos (e por causa disso deixei de aguentar Vivaldi) a megaloja de livros, discos, puzzles, caixinhas com massagens corporais e outras experiências, computadores, auriculares, acessórios incríveis, guitarras, promoções e bilhetes de espetáculos entre outros.

Segundo digo que recordo o engraçado que foi o chocolate Raider passar de repente a chocolate Twix porque Raider era já nome de inseticida acho que do tipo casa e plantas, mas de matar os bichos e não a casa nem as plantas (a graça é por aqui se faz favor) e o chocolate joga noutra equipa.

Terceiro e último por ora, é a ideiazinha de se dar o nome Michelin, não é Miquelina, Marcoleta, Nicolázia, Esperanzídia, Deliciónia, não, é Michelin, às estrelas atribuídas a restaurantes muito bons, muito bons, muito bons, quando Michelin via eu já perfeitamente a partir do banco de trás dos anos setenta que é negócio de pneus com boa aderência ao asfalto, portanto recomendáveis pelo boneco cheio deles que lá estava sempre colado em reclames na traseira dos autocarros, nada a ver com sopinha de caranguejo e tangerina, é isto que eu digo.

* Comi na única vez que visitei um restaurante com duas estrelas dessas, em que com dois golos apenas devorei toda a quantidade da sopa servida em tacinha de porcelana branca de pequenas dimensões, de pé e de saltos altíssimos que ainda me lembro das dores que foi depois.

20/11/2017

Em Portugal temos muita sorte

Sentamo-nos na sala, prontos para conversar. À nossa frente temos as bebidas e temos, pode ser, uns biscoitos ou uns queijos, por exemplo aquele que tem nozes embutidas e é tão bom que parece mentira, ou também uma pasta de atum, e ainda um bolo que eu fiz e que tornou a sair mal, avisei, porém não tão mal como o último que foi direto para o lixo (enfim), mas eles querem provar e eu espero que seja do forno (mas pode ser de mim).

Perguntam-me como vão as minhas filhas e como vai Portugal, comentam ainda os incêndios que fizeram notícia em todo o lado. Pego da palavra em inglês que vai melhor que o holandês e conto o que sei, aproveito para incluir um resumo do recente discurso do Al Gore em Lisboa a propósito das alterações climáticas, as minhas filhas estão bem, obrigada. Já devem estar grandes, diz Hilde a sorrir, há tantos anos que as não vejo, oh sim, estão as duas grandes. E depois é a minha vez de querer saber.

Hilde está aposentada da profissão de professora e faz voluntariado. À quinta feira dá aulas de neerlandês a refugiados acolhidos na Holanda. Da Síria, principalmente. Mas também de outros lados.
- E conseguem aprender bem, esses teus alunos?
- Não muito, fazem progressos, mas lentamente. É difícil, porque o alfabeto é totalmente diferente… e além do mais alguns nem sabem ler ou escrever na língua deles.
- A sério?...
- Sim, alguns dos mais velhos. Mas apostam muito nos filhos – as famílias vieram juntas em muitos casos – e esperam que os filhos aprendam e consigam depois um bom emprego.
- Então não têm emprego, esses teus alunos.
- Não, não conseguem arranjar. E por isso ficam muito desocupados. Mas claro que têm uma vida aqui muito melhor do que a que tinham no país deles, isso nem se compara...
- E eles querem voltar?
- Querem. Na maioria querem voltar, acreditam que o país se vai reconstruir, reorganizar. Têm esperança.
E depois pergunta-me:
- Já imaginaste, Susana, estares numa situação em que o teu país não tem nada, está tudo destruído, nem reconheces os lugares onde sempre viveste, e só te resta fugir para um lugar desconhecido na esperança de sobreviver?
- Não… acho que nem consigo imaginar…
- Nós temos muita sorte, aqui na Holanda – continua – e eu tento não me esquecer disso nunca, da sorte que temos. E tentamos, eu e os outros voluntários, fazer estes refugiados sentirem-se bem-vindos aqui. Pelo menos isso creio que conseguimos.

Antes de ir buscar mais bebidas à cozinha, e continuando a não ser capaz de imaginar como se sentem os refugiados, eu ainda disse que também nós, em Portugal, temos muita sorte.

09/11/2017

Web-it Sum-it (lembrei-me)

Sento-me antes da hora numa das primeiras filas e entre cadeiras vazias, mesmo assim já passa das dez e penso no meu computador. Se o tivesse trazido adiantava trabalho aqui no colo. Só que a sala começou logo a encher com uma dinâmica muito boa e em menos de nada tinha já um eslavo à minha direita que cheirava um bocadinho mal e um jovem europeu à minha esquerda e um casalinho à minha frente mesmo a cheirar a chinês. Atrás de mim ouvem-se duas jovens a conversar em português, uma diz à outra que ele não devia ter feito aquilo no insta, achas normal?!, aquilo o quê não sabemos, que os acordes já habituais se elevam a anunciar a entrada de Paddy Cosgrave, para abrir mais um dia de Web Summit no Altice Arena!
Há vibração, claro que há. É magnífico estar aqui. O Paddy lá vem de t-shirt com as três montanhas do logo, não sei como não tem frio neste ar condicionado puxadote ainda por cima ele tão magrinho, e diz, vi aqui pessoas sentadas desde as oito e meia da manhã, por isso toca a levantar e agitar os ombros, mexer os braços, roda, solta, solta, e cada um de vós apresente-se aí a três pessoas, digam lá quem são e de onde vêm, e vamos começar!
O eslavo virou-se para o outro lado, portanto fiquei com o jovem europeu que é italiano – ah sim? tenho uma filha em Itália – que não posso ficar calada com estas coisas e ele todo admirado com isso e ainda mais quando eu lhe disse que no meu caso não venho de longe, sou mesmo uma sortuda aqui de Lisboa, o chinês do casal da frente virou-se para trás e disse-me que vinha da França mas vive agora em Londres e eu, eh pá, mas olha que pareces mesmo chinês, e sou de origem chinesa, diz então a rir-se, já sabemos que os chineses se riem muito e, falta um, do outro lado do chinês um homem bojudo de óculos e nome impercetível que vem da Jordânia e eu parece que nunca tinha falado com ninguém da Jordânia, três, já está.

E está muito bem, o Web Summit está mesmo muito bem.

02/11/2017

Loendros em flor

Hoje de manhã cedo fui meter-me em autoestradas umas a seguir às outras em direção a norte e em todas vi os loendros com dois dias de atraso. Eles dão flor entre maio e outubro teoricamente e as flores ainda estão lá muitas nos loendros. Tanto em rosa como em branco. E estão a contrastar imenso com os vestígios dos incêndios de um lado e doutro – tanto castanho e tanto preto, que o embaciado do vidro já não era só da chuva também era de mim.

Ao regressar a casa, pela hora de almoço, estaciono o carro em espinha no pátio da frente ao lado da carrinha daquela vizinha que parece estar permanentemente zangada com qualquer coisa, não se sabe o quê. E estaciono tão juntinho ao muro que delimita do outro lado, tão juntinho, que fui lá ver: um centímetro ou menos. O muro tem uma textura prometendo arranhar carros sem problema nenhum (tipo o meu) portanto este centímetro é muito aproximado. Não sei como fiz isto, eu que, segundo disse o vizinho das luvas na reunião de condomínio uma vez, parece que tenho medo de bater com o carro na parede, e tenho mesmo. Mas tenho muito mais medo desta merda muito grande das alterações climáticas e de a gente continuar todos a poluir tanto.